TV Pública não é big nem mini brothers
BLOG JORGE CUNHA LIMA – 18 /03/2009
TV CULTURA E NEO LIBERALISMO
Durante os vinte últimos anos as sociedades contemporâneas se organizaram para promover a desmoralização das instituições do estado. Ao lado de algumas coisas que obviamente poderiam ser geridas pelo mundo privado, colocaram quase todas que se relacionassem com produção, serviços, explorações de riquezas de toda ordem, comunicação e até mesmo a assistência social que quiseram delegar para as ONG. O que ficasse com o estado seria desmoralizado pela mídia, pelos técnicos, pelos consultores profissionais.
Assim, a comunicação pública, representada pelas televisões educativas, melhor denominadas públicas, foi mandada para o pelourinho. Não têm audiência, gastam dinheiro do governo e ainda querem verbas publicitárias, são cabides de emprego, buscam independência financeira e editorial. A única coisa que não conseguiram foi falar mal de sua programação, principalmente dirigida às crianças e aos líderes da sociedade, em todos os níveis. A opinião pública sustentou a televisão pública nos últimos quarenta anos.
A crise fiscal do estado foi o pretexto para o enxugamento das verbas, dos quadros, da capacidade produtiva e dos investimentos. Os meios sugeridos e muitas vezes aplicados foram a reengenharia neoliberal, impostos como solução mágica e indispensável. Queriam que as televisões sem finalidade lucrativa dessem lucro ou estivessem sempre com o caixa reluzente. Sugeriram ou aplicaram receitas ultra ortodoxas, mais adequadas a um super mercado, para instituições de caráter eminentemente cultural.
No caso da TV Cultura, quando fui presidente chegaram a me sugerir o fim do jornalismo, de todos os jornais da emissora, dos documentários e só deixar a programação infantil. Assim, os resultados seriam ótimos. Sugeri que melhor seria fechar toda a programação e alugar a sede, pois assim a Fundação até daria lucro.
No mínimo fui considerado um gerente ultrapassado.
Hoje que essa macro-economia neoliberal foi pro brejo com todos os seus consultores, podemos discernir com calma.
O produto da televisão comercial é a audiência. O que traz recursos para uma emissora comercial é ter um bom estoque de audiência, qualquer que seja a qualidade da programação. Na TV pública o produto é a própria programação. Não vendemos audiência, mas promovemos a formação e a informação crítica do telespectador. Qualidade de programação é valor insubstituível.
Fomos esquartejados porque dirigíamos nossa programação a segmentos de audiência, isto é, para crianças, velhos, jovens, líderes da sociedade, artistas em vez de querermos abranger todo mundo, o tempo todo ao mesmo tempo como fazem programas bem sucedidos dos domingos.
Se falássemos essas coisas antes do abandono freudiano do Lehman Brothers seríamos considerados imbecis como já nos advertiu Witgenstein no começo do século passado. Agora, pelo menos podemos falar.
A Televisão pública precisa muito mais do que audiência. Precisa credibilidade, precisa controle direto e indireto da sociedade em sua programação, precisa seguir os princípios da constituição e da lei que criou a EBC, impecável na definição dos princípios da TV Pública. Precisa utilizar a tecnologia em uma multi programação de interesse da sociedade. Precisa iniciar um processo autêntico de convergência com outros meios de comunicação e de interatividade com o público.
A televisão, como outras instituições de caráter cultural e artístico, precisa de uma gestão de instituição cultural específica que, infelizmente ainda não se ensina na FGV, na IBMEC, nem em qualquer MBA existente no Brasil e tampouco na Universidade Pública.
Não somos banco, nem quitanda nem big brohther. Nossa comdoditie é outra.